Resumo rápido: o Ibovespa passou dos 200 mil pontos pela primeira vez na história. O problema é que muita coisa subiu sem que nada tenha melhorado. O Banco do Brasil saiu de R$ 17 em agosto para R$ 24 em outubro com o mesmo lucro fraco, a mesma inadimplência do agro e o mesmo guidance cortado. Eu estou fazendo o contrário do que a maioria faz na euforia: realizando parte do lucro, segurando a compra e montando o maior caixa da minha vida de investidor.
Resposta direta: o recorde do Ibovespa é hora de comprar ou de realizar?
Na minha estratégia, é hora de realizar e de fazer caixa. Não de sair correndo atrás do que já subiu.
O mercado nunca esteve tão animado com o Brasil. Animado e eufórico não significa certo. Eu repito isso há anos: o mercado é irracional nas duas pontas. Às vezes ele exagera no pessimismo, às vezes exagera na euforia. É ele que manda no preço, e o nosso trabalho é decidir o que fazer em cada extremo.
Nada aqui é recomendação de compra ou venda. É o que eu faço com o meu patrimônio, que está todo em ações, e que funciona para mim depois de mais de uma década investindo.
O exemplo do Banco do Brasil
Uso o Banco do Brasil porque é um papel que a gente acompanha de perto por aqui. Não tenho em carteira hoje, já tive. O raciocínio vale para dezenas de outras ações da bolsa.
Até agosto quase ninguém queria o papel. A cotação chegou a ficar abaixo de R$ 18, e a narrativa em cima dela era pesada: lucro 53% menor que o mesmo período do ano anterior, recorde de inadimplência do agro sem previsão de quando melhora, guidance revisado para baixo pela própria empresa e um ROE pequeno perto dos outros bancos. Faz sentido a ação apanhar com esse quadro.
Nos dois meses seguintes a ação subiu mais de 40%, puxada por pesquisas eleitorais e pelo resultado do primeiro turno. Compare as duas fotos:
| Banco do Brasil | Agosto | Outubro |
|---|---|---|
| Preço da ação | R$ 17 | R$ 24 |
| Lucro do trimestre | Fraco | Fraco, e a expectativa continua fraca |
| Inadimplência do agro | Recorde | Recorde, sem data para melhorar |
| Projeção de lucro de 2026 | Cortada | Cortada |
Só uma linha mudou, e é justamente a do preço.
Mesmo banco, mesmo risco, mesmas notícias ruins. O que mudou foi a esperança de um futuro menos difícil para o Brasil. A empresa não ficou melhor, ela ficou mais cara.
O nome disso é FOMO
Aí bate aquele aperto: e se eu ficar de fora? E se eu nunca mais vir esse papel a R$ 24?
Isso é o fear of missing out, o medo de perder o bonde. Ele funciona em dobro porque a dor de perder é mais intensa do que o prazer de ganhar. No pessimismo você não compra, e às vezes até vende, porque a narrativa está tão ruim que você tem medo de perder mais. Na euforia você quer comprar caro, porque todo mundo está comprando e todo mundo está falando.
Na minha opinião, o certo é exatamente o contrário. Quem acompanha o canal sabe que o que mais tem por aqui é eu aportando com a faca caindo. Compro com a faca caindo porque eu não sei até onde ela vai cair. Quando o jogo vira para o nosso lado, a pancada é grande.
O efeito manada está colado no FOMO. No começo você até ganha, ou perde menos. Em algum momento ele troca de lado, e aí a conta chega. Se o seu problema é esse gatilho, escrevi sobre ele em por que você vende no pânico.
Na euforia, até pedra sobe
Não é só o Banco do Brasil. Estão subindo os bancos em geral, as estatais, o varejo, a construção civil. Small caps então nem se fala. Empresa ruim também está linda. A Vale é das poucas que ficou estagnada.
A maré alta levanta quase todos os barcos, inclusive os furados. Subir junto com a maré não prova que o ativo é bom. Essa é a confusão mais cara que o investidor comete num momento como este.
O pêndulo de Howard Marks
Howard Marks descreve o mercado como um pêndulo, não como um elevador que só sobe ou só desce. O movimento é sempre o mesmo: pessimismo, valor justo, euforia, correção, valor justo, pessimismo de novo.
Se você quiser se aprofundar, os dois livros dele são O Mais Importante para o Investidor e Dominando o Ciclo de Mercado.
Onde eu acho que estamos no pêndulo
Acredito que já passamos um pouco do valor justo e estamos navegando na direção da euforia.
Acho que a bolsa ainda tem espaço para subir, talvez até 210, 220 ou 230 mil pontos se a vitória se confirmar. Só que nada dura para sempre, e em algum momento o pêndulo volta para o outro lado. Para dimensionar: chegamos a ter o Ibovespa em 168 mil pontos no pessimismo, e agora estamos perto dos 210 mil.
Renda variável serve para isso, para ganhar dinheiro nos dois momentos. No pessimismo você aporta. Na euforia você realiza. É nos extremos que você precisa de mais cautela, não menos.
O que eu estou fazendo agora
Aqui não é evidência do passado. É o que eu faço na hora, com o patrimônio em jogo, e lá na frente a gente confere se deu certo.
1. Realizar onde o espaço para subir encolheu
Já vendi 25% da minha posição em XPBR31 com um lucro excelente, e também realizei parte de LOG3.
O critério é simples. XPBR31 está perto de R$ 150. Ela pode ir a R$ 300? Pode. Mas me diga o que é mais fácil dobrar: um papel de R$ 150 indo para R$ 300, ou um papel de R$ 3 indo para R$ 6? Para mim, o segundo. A ideia é trocar potencial menor por potencial maior, e não apostar que o papel que já correu vai parar de correr.
2. Comprar só o que não foi na festa
Até agora eu não comprei nada. Tenho ativos no radar, e só entro no que ainda não acompanhou a euforia. Quando comprar, gravo um vídeo mostrando.
Eu olho dois grupos. O primeiro são as molas comprimidas, ações que ficaram de fora da festa por um motivo identificável:
- Klabin e Suzano, que andam de lado há uns cinco anos porque a celulose está em baixa e elas vendem a commodity em forma de produto.
- M. Dias Branco, que sofre pelo motivo oposto: ela compra commodity como insumo, e trigo e óleo de palma estão em alta, espremendo a margem. Abri essa conta inteira em MDIA3 na mínima de 14 anos.
- Vale, com o minério de ferro apanhando e a demanda da China menor do que já foi, andando de lado na faixa dos R$ 69 a R$ 70.
- O setor de comunicações inteiro, que caiu cerca de 30% em seis meses. Quem gosta de Vivo ou de Tim talvez esteja olhando para a sua mola comprimida agora.
- Vulcabras, que também ficou para trás nessa alta.
O segundo grupo são as saudáveis e atrasadas: empresa entregando bom resultado cujo preço não acompanhou os pares.
Lojas Renner é o exemplo que eu gosto. ROE de dois dígitos mantido depois da pandemia, margem saudável para o setor, lucro líquido consistente há muito tempo, receita e lucro por ação crescendo. Diante do tanto que o varejo subiu agora, ela ficou para trás. Analisei o resultado dela em Renner (LREN3) no 2T26. Grupo Mateus é outro nome na mesma lógica.
Esses são os meus critérios. Se para você o que importa é dividendo, procure boa distribuição que não subiu junto. Cada um tem o seu filtro, e é isso que eu quero que você construa.
3. Fazer caixa
Tudo o que eu realizei virou caixa. Hoje eu estou com o maior caixa da minha vida de investidor, e ainda não fiz nenhum aporte novo.
Caixa não é covardia. É munição para a próxima promoção, e promoção sempre aparece.
Promoções que já apareceram
Todas estas eu participei, e elas existiram porque a narrativa estava insuportável na época:
| Ação | Preço no pessimismo | O que o mercado dizia |
|---|---|---|
| Bradesco (BBDC3), 2025 | R$ 10 a R$ 11 | Que emprestava demais para pessoa física e a carteira de crédito ia quebrar |
| Vale, 2025 | R$ 49 | Minério em queda e China comprando menos |
| Cogna, fim de 2024 | R$ 0,96 | Setor de educação condenado |
| Banco do Brasil, 2022 | R$ 14,32 | Que o novo governo ia sucatear o banco |
O Bradesco está hoje na faixa dos R$ 18 a R$ 19 e eu já realizei toda a posição. A Vale eu também zerei. A Cogna chegou a ser a segunda maior posição da minha carteira, realizei boa parte e ainda tenho um pedaço. O Banco do Brasil chegou perto de R$ 60 com o valor da época, antes do desdobramento.
Repare no padrão: em todos os casos existia uma manchete ruim de verdade, não imaginária. O mercado ganha dinheiro no pessimismo, não na euforia. Sempre vai ter um papel feio apanhando em algum canto, mesmo com o índice em máxima.
Ser investidor casca grossa é comprar no medo
Quem comprou no medo entre 2024 e meados de 2026 está hoje podendo realizar um pouco na euforia. É essa a sequência, e ela só funciona se você conseguir aguentar a parte chata.
Comportamento é o que te mantém no jogo no médio e longo prazo. Análise tem muita por aí. Conversa sobre comportamento tem pouca, e é justamente a parte que decide se você vai estar posicionado quando o jogo virar.
Foi por isso que eu gravei o Investidor Casca Grossa, dividido em nove módulos sobre comportamento e sobre as regras do jogo da renda variável. Não é lista de ação nem planilha de o que vai subir. Se você quer ver o outro lado dessa moeda, o de quem fica 100% em ações, respondi as críticas em me chamaram de maluco por ter 100% em ações.
Perguntas frequentes sobre o Ibovespa a 200 mil pontos
O Ibovespa a 200 mil pontos significa que a bolsa está cara?
O índice no topo não diz sozinho se cada ação está cara. Ele diz que a maré subiu. O que ficou caro foi o conjunto de papéis que subiu sem melhora de fundamento, como no caso do Banco do Brasil. Ainda existem setores inteiros que não acompanharam, como comunicações, que caiu cerca de 30% em seis meses.
Devo vender tudo com o Ibovespa em máxima histórica?
Não é o que eu faço. Eu realizo parte das posições em que o espaço para subir encolheu, e mantenho o resto. Vender tudo é tentar acertar o topo, e ninguém acerta topo com consistência. A ideia é trocar potencial menor por potencial maior, não zerar a carteira.
O que é uma mola comprimida na bolsa?
É uma ação que ficou de fora da alta por um motivo identificável, normalmente um ciclo de commodity ou um setor fora de moda. Klabin e Suzano com a celulose em baixa, M. Dias Branco com trigo e óleo de palma em alta, Vale com o minério apanhando. Quando o motivo se inverte, o preço tende a reagir.
Por que o Banco do Brasil subiu 40% sem melhorar o resultado?
Por expectativa, não por fundamento. Entre agosto e outubro o lucro continuou fraco, a inadimplência do agro continuou em recorde e a projeção de lucro de 2026 continuou cortada. O que mudou foram as pesquisas eleitorais e o resultado do primeiro turno, que acenderam a esperança de um cenário melhor adiante.
Faz sentido ficar com dinheiro em caixa num momento de alta?
Na minha estratégia, sim. Caixa é munição para a próxima correção, e o histórico mostra que ela sempre vem. Bradesco a R$ 10 em 2025, Cogna a R$ 0,96 no fim de 2024 e Banco do Brasil a R$ 14,32 em 2022 são promoções que só serviram para quem tinha dinheiro disponível na hora.
Qual é o pêndulo de Howard Marks?
É a ideia de que o mercado oscila entre pessimismo e euforia passando pelo valor justo, em vez de subir ou descer em linha reta. Marks desenvolve isso em O Mais Importante para o Investidor e em Dominando o Ciclo de Mercado.
O Fred Invest tem Banco do Brasil na carteira?
Hoje não. Já teve, e o papel aparece aqui como exemplo porque é acompanhado de perto no canal. O raciocínio do texto vale para dezenas de outras ações.
Se a sua dúvida é quantos papéis manter enquanto isso tudo acontece, está em diversificar ou concentrar ações.
Aviso importante: conteúdo educacional e informativo. Não constitui recomendação de compra, venda ou manutenção de qualquer ativo. As operações citadas são do autor, com o próprio patrimônio, e as leituras sobre o mercado são opinião dele. Cotações e dados de mercado referem-se à data de publicação e mudam. Rentabilidade passada não garante resultado futuro. Não acredite em youtuber nem em influenciador: faça sempre o seu próprio estudo antes de investir.


