Me chamaram de maluco por ter 100% em ações. Respondi

Resumo rápido: o vídeo em que expliquei por que tenho 100% em ações viralizou, e a caixa de comentários encheu. Me chamaram de maluco, disseram que estou desperdiçando o maior juro real do mundo e apontaram um print do meu próprio gerenciador de carteira mostrando ganho de capital negativo mês após mês. As duas primeiras coisas eu aceito. A terceira é uma distorção de cálculo, e eu abro a planilha para mostrar exatamente onde ela nasce.

Resposta direta: por que o ganho de capital aparece negativo se eu lucrei?

Porque quando eu vendo uma posição, o dinheiro sai do patrimônio e vai para o caixa da corretora. O gerenciador não pergunta se a venda foi lucro ou prejuízo. Ele só vê que o patrimônio do fim do mês ficou menor que o valor aplicado, e registra a diferença como ganho de capital negativo.

Esses gráficos de barras não foram feitos para quem opera como eu. Foram feitos para o buy and hold raiz: você compra, deixa lá, reinveste dividendo. É uma estratégia linda e é o que a maioria faz no Brasil. Quem gira carteira aparece torto nessa conta por construção, não por prejuízo.

A culpa do mal-entendido é minha, inclusive. Eu gravo pensando em quem já acompanha o canal e conhece o meu estilo. Aquele vídeo alcançou muita gente que estava me vendo pela primeira vez, e eu não aprofundei o suficiente. Vamos aprofundar agora.

Agosto de 2024: o mês em que mais lucrei apareceu como -R$ 30 mil

Esse é o exemplo mais fácil de enxergar, então vou usar ele.

Em agosto de 2024 o gerenciador mostrava patrimônio de R$ 233 mil contra valor aplicado de R$ 265 mil. Ganho de capital: pouco mais de R$ 30 mil negativos.

Agora o que aconteceu de verdade naquele mês. Foi quando eu zerei a minha posição em Ambipar, no meio daquele short squeeze que quem acompanhava na época viu. As vendas individuais saíram a 150%, 209%, 268%, 275% de rentabilidade. A média ficou acima de 200%. Foi o maior lucro da minha história, praticamente um ano do meu salário numa operação só, e foi também o maior DARF que eu já paguei na vida, porque acima de R$ 20 mil em vendas com lucro você paga imposto.

Fiquei feliz. Depois fiquei triste na hora de pagar o DARF. Faz parte.

E mesmo assim o mês fechou com ganho de capital negativo no gerenciador. A aritmética é essa:

  • Digamos que eu tinha R$ 200 mil de patrimônio no início do mês, somando Ambipar mais as outras posições.
  • Vendi R$ 60 mil de Ambipar, com lucro.
  • A ação deixou de existir na carteira. O patrimônio fechou o mês em R$ 140 mil.
  • O gerenciador compara esse R$ 140 mil com o que eu apliquei e conclui que eu perdi dinheiro.

O dinheiro não sumiu. Ele está parado na corretora esperando a próxima oportunidade. Só que o gerenciador não contabiliza o que está parado, então para ele aquilo evaporou.

Isso acontece em vários meses do meu histórico, porque eu vendo com frequência. Agosto, setembro, novembro e dezembro de 2024. Janeiro, fevereiro, março, maio e junho de 2025. Toda vez que eu realizo, a barra vira para baixo.

“ETF ganha do stock picking no longo prazo”

Esse foi o comentário do André, e é uma ponderação boa. O argumento dele: stock picking é jogo de perdedor porque o investidor comum é enviesado. Não compra a empresa ruim antes dela explodir, só compra a boa depois que ela já subiu, tem medo de aportar na baixa e vende na alta achando que está inflado. No fim você perde para o ETF.

Eu concordo com quase tudo isso. Li o livro do fundador da Vanguard, que explica ao longo de páginas e páginas por que é mais inteligente deixar a gestão com profissionais, pagar uma taxa e cuidar da sua vida. O raciocínio é sólido. ETF no longo prazo é lindo, e em muitos casos performa melhor que ações famosas da bolsa.

Eu gosto de estudar coisas em que não invisto. Estudo empresas de dividendos e não invisto focado em dividendos. Estudo fundo imobiliário e não tenho fundo imobiliário. Estudo ETF e não tenho ETF. Conhecer como cada classe funciona é o que me permite dizer se ela serve ou não para o meu perfil.

ETF serve muito bem para quem tem grana e para quem não quer bater cabeça com o mercado. Eu estou me dispondo a bater cabeça. É isso que eu vim buscar aqui.

A parte em que eu discordo é a generalização. Aquele comportamento que o André descreveu acontece com mais da metade dos investidores, tranquilamente. Mas dizer que vai dar errado para todo mundo é outra coisa. Para mim, até agora, tem funcionado. Se depois de mais de dez anos investindo eu olhasse para trás e não estivesse valendo a pena, eu já teria essa noção. Talvez quando eu for multimilionário eu coloque tudo em ETF e vá viver a vida.

“Você está desperdiçando o maior juro real do mundo”

O Diego está certíssimo. Estou desperdiçando mesmo.

O Brasil é chamado de país do rentismo por um motivo. Você monta uma operação, se desgasta, e no fim fecha com 10% ou 11% de lucro líquido. Deixando o dinheiro parado na renda fixa você faz 12% ou 13% com risco quase zero. É difícil ignorar isso, e eu não vou fingir que não é.

Na renda variável eu me desgasto muito mais. Preciso estudar muito mais, me descabelar muito mais, para conseguir uma rentabilidade que às vezes nem é tão superior assim. A diferença é que eu quero mais, e aceito correr mais risco por isso. É uma escolha, não uma demonstração de que a renda fixa está errada.

“Minha carteira é 100% fundos imobiliários”

O Bruno comentou isso e eu achei ótimo.

Se a necessidade é renda mensal, não existe hoje nada melhor que fundo imobiliário resolvendo esse problema. Eu respeito a estratégia e sei para que ela serve. Justamente por saber para que serve, eu sei que ela não atende o que eu procuro. Se eu quero pancadaria, chute na costela, não vai ser em fundo imobiliário, nem em renda fixa, nem em ETF, nem comprando dólar.

Na carteira da minha esposa tem fundo imobiliário, porque ela é iniciante e a carteira dela é focada em dividendos. A minha não é.

O que o Bruno está fazendo parece básico, mas não é. A maioria fica trocando: foi fundo imobiliário, não serviu, agora vou para ação, não serviu, agora vou para ETF. Ele achou o que resolve o problema dele, está dormindo bem e ficou. Isso é mais raro do que parece.

Migrando da acumulação para os dividendos

O Cristiano contou que está migrando aos poucos, direcionando os aportes novos para fundo imobiliário, tesouro e ações pagadoras de dividendos, mantendo as ações que já tem. Os dividendos dele foram R$ 19 mil no ano passado e devem bater R$ 32 mil neste ano. A ação que mais paga rende 15% de yield on cost, que é o dividendo medido sobre o preço médio de compra, não sobre a cotação de hoje.

Repare no verbo que ele usou: migrando. Ele já atingiu um montante que permite começar a tirar risco da carteira e caminhar para ativos mais perenes. Quem chega nesse ponto sabe que chegou.

Eu ainda estou na fase de acumulação. Imagino começar essa migração daqui a uns três ou quatro anos.

“Giro de carteira não funciona para iniciante”

A Luciana escreveu isso e é verdade.

Girar carteira não é fácil, e a parte difícil não é técnica. Você vende com um lucro que estava bom para você e continua olhando a cotação. Será que eu deveria ter esperado mais? O papel sobe mais um pouco nos dias seguintes e você fica deprimido por ter ganhado dinheiro. É um jeito curioso de se punir.

Por isso eu repito sempre a mesma coisa: atingiu um lucro que está bom para você, realizou, acabou. Sem paixão pelo papel.

Foi exatamente esse o raciocínio para montar a carteira da minha esposa com dividendos em vez de commodity ou ativo muito cíclico. Compra um banco, compra um fundo imobiliário, vai sentindo a volatilidade. Gostou, sobe de nível. Não gostou, fica onde está e está tudo certo.

Idade e apetite a risco: eu faria a mesma coisa hoje?

O Cássio disse que se tivesse a minha idade faria igual. Ele tem razão, e esse ponto é mais importante do que parece.

Comecei a investir com 20 e poucos anos. Hoje tenho 33. Naquela época eu não tinha a responsabilidade que tenho hoje, e os ativos em que eu aportei ao longo desses mais de dez anos foram bem voláteis. Se eu errava num mês, voltava no mês seguinte e recomeçava.

Depois de uma certa idade essa margem para errar diminui. Continuo aportando em ativo volátil, mas às vezes escolho um que oscila menos que os outros. É o mesmo movimento das aventuras que a gente fazia aos 20 e o corpo não aguenta mais depois dos 30.

Perder faz parte, desde que os ganhos superem

Um assinante contou que está há oito anos na bolsa, só em ações, que teve perdas e que os ganhos superaram. É exatamente o que eu faço.

Fundos renomados, brasileiros e internacionais, com gente que vive de mercado e recebe informação antes de todo mundo, tomam na cabeça de vez em quando e vêm a público admitir que erraram feio em um papel. Se eles perdem, por que eu não perderia? Você trabalha o dia inteiro, chega em casa à noite, ainda tem que arrumar um tempo para estudar ações. Não é fácil.

O jeito de medir é simples. Pegue o lucro das vendas, subtraia o prejuízo das vendas, e compare com o CDI numa janela grande. Se está batendo, você está no caminho. Se não bateu em um ano, um ano é um susto na bolsa de valores, não é uma conclusão. Ter ativo negativo na carteira é normal, ainda mais no Brasil, onde até o passado é incerto.

Se eu tenho 100% em ações, por que aparece renda fixa na carteira?

Essa pergunta apareceu mais de uma vez, e a resposta é que eu não considero aquilo investimento.

O que está em renda fixa é reserva de emergência e reserva de oportunidade, na mesma conta. Eu mantenho entre 10% e 20% do valor alocado. Se tenho R$ 100 mil em ações, tenho entre R$ 10 mil e R$ 20 mil parados ali.

É dinheiro transitório. Serve para uma emergência ou para um aporte mais pesado quando aparecer oportunidade. Quando eu digo 100% em ações, quero dizer que é ali que acontece a evolução patrimonial. Não compro imóvel, não compro terreno. O patrimônio está todo em ação.

Tem uma exceção agora: pretendo sair do aluguel entre 2026 e 2027, e o valor da entrada do imóvel já está guardado na renda fixa. Aquilo não vai para jogo e eu não conto como investimento. Está parado esperando o imóvel aparecer.

Como eu sei se a estratégia está dando certo

Eu parei de olhar o ganho de capital do gerenciador e passei a olhar o valor aplicado, que é o dinheiro que eu efetivamente coloquei na bolsa.

  • Novembro de 2019: cerca de R$ 33 mil.
  • Fim de 2020: R$ 74 mil de patrimônio.
  • Fim de 2021: R$ 92 mil.
  • Fim de 2022: R$ 120 mil.
  • Fim de 2024: R$ 214 mil de patrimônio contra R$ 300 mil de valor aplicado, com o ganho de capital bem negativo por causa das vendas.
  • Hoje: R$ 334 mil de valor aplicado.

No fim de 2024 eu tinha zerado posições inteiras em sequência, e por isso a discrepância entre patrimônio e valor aplicado ficou tão grande. Os ativos saíram da carteira e o dinheiro foi para o caixa.

Eu sou concursado de nível médio. Meu aporte fica na faixa de R$ 1 mil a R$ 2 mil por mês, quando dá. Sem herança. Reinvisto os dividendos que recebo e os lucros das vendas, e nunca tirei nada da bolsa. Está tudo lá dentro.

Sair de R$ 33 mil para essa faixa com aporte desse tamanho é o que me faz concluir que está funcionando. Não é a barrinha do gráfico.

Quando o Ibovespa bateu os 200 mil pontos, eu vendi e não reapliquei. O dinheiro ficou parado. Quando o índice caiu para a faixa dos 167 mil, voltei a aportar. É esse vaivém que produz as barras negativas.

Perguntas frequentes

Ganho de capital negativo no gerenciador significa prejuízo?

Não necessariamente. A métrica compara o patrimônio no fim do mês com o valor aplicado. Quem vende uma posição tira aquele valor do patrimônio, e o dinheiro que fica em caixa não é contabilizado. O resultado aparece negativo mesmo quando a venda foi lucrativa.

Qual métrica usar para quem gira carteira?

Uma planilha própria de vendas realizadas, somando lucros e subtraindo prejuízos, comparada ao CDI numa janela de vários anos. O valor aplicado ao longo do tempo também ajuda, porque mostra quanto dinheiro foi efetivamente colocado na bolsa.

Ter 100% em ações e ainda assim manter renda fixa é contraditório?

Depende do que você chama de investimento. Aqui a renda fixa é reserva de emergência e de oportunidade, entre 10% e 20% do valor alocado, além do dinheiro reservado para a entrada de um imóvel. É caixa transitório, não alocação estratégica.

ETF é melhor que escolher ações individualmente?

Para a maior parte das pessoas, provavelmente sim, e o argumento a favor do ETF é sólido. A escolha por selecionar ações só se justifica para quem aceita estudar, errar e conviver com volatilidade em troca da chance de uma rentabilidade maior.

Quando eu pago DARF ao vender ações?

Ao vender acima de R$ 20 mil no mês com lucro em operações comuns de ações. Foi o que aconteceu quando zerei a posição de Ambipar em 2024, na operação mais lucrativa que já fiz.

Se você caiu aqui sem ter lido o texto que deu origem a essa discussão, ele está em investir em ações com a Selic a 14%. E se o seu problema não é escolher entre classes de ativo e sim aguentar a queda sem vender, escrevi sobre isso em por que você vende no pânico.


Aviso importante: conteúdo educacional e informativo, baseado em experiência pessoal. Não trabalho no mercado financeiro e não faço recomendação de compra, venda ou manutenção de qualquer ativo. Os valores, percentuais e datas citados se referem à carteira do autor e às operações já realizadas, e não se repetem. A operação de Ambipar citada foi encerrada em 2024. Rentabilidade passada não garante resultado futuro, e renda variável envolve risco de perda do capital investido. Faça sempre o seu próprio estudo antes de investir.

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