Resumo rápido: o Ibovespa corrigiu depois de bater quase 210 mil pontos, e para mim isso é a parte boa da renda variável, não a ruim. Eu tinha vendido XPBR31 e LOG3 na alta, fiz caixa, e voltei a comprar na queda. Não acertei topo nem fundo, e nem tentei. Este texto mostra o que aconteceu em dez dias, por que a bolsa devolveu parte do recorde e as regras que eu uso para reagir sem precisar adivinhar o dia de amanhã.
Resposta direta: o que fazer quando o Ibovespa corrige?
Comprar em parcelas, com o caixa que você montou enquanto tudo subia.
A ideia nunca é adivinhar o topo para vender nem o fundo para comprar. É reagir ao que está acontecendo com um método definido antes, para você não ter que decidir no susto.
Nada aqui é recomendação. É o que eu faço com o meu patrimônio, e é o que me deixa dormir tranquilo.
O que aconteceu em dez dias
Foi muita coisa em pouco tempo:
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| 5 de outubro | O Ibovespa sobe 7,7%, a maior alta em um único dia desde março de 2020, e fecha em recorde histórico |
| Semana do primeiro turno | Melhor semana desde 2020, com o índice perto de 210 mil pontos e a maior entrada de capital estrangeiro em vários anos |
| Durante a alta | O dólar faz o caminho inverso e cai, porque entra dólar demais no país |
| 13 a 15 de outubro | Três quedas seguidas, com as construtoras, o consumo e o varejo levando a pior |
| 16 de outubro | O índice anda de lado e o dólar volta para cima de R$ 5 |
Repare quem apanhou mais na correção: justamente as empresas que mais tinham se beneficiado da expectativa de juros caindo.
Por que a bolsa corrigiu
Não dá para cravar o motivo, e quem cravar está inventando. Mas existem três coisas razoáveis de se considerar.
A primeira é realização de lucro. Quem estava comprado antes do primeiro turno passou muito tempo andando de lado ou no vermelho e de repente viu a carteira inteira ficar verde. É natural que parte dessa gente tenha tirado um pedaço da mesa.
A segunda é que as pesquisas apertaram. O resultado do primeiro turno veio diferente do que praticamente todas as pesquisas apontavam, e o mercado leu isso como favorável. Agora os levantamentos mostram algo perto de um empate técnico, com dezenas de milhões de abstenções, ou seja, muita gente que ainda pode aparecer e mudar a conta. O mercado reage a cada pesquisa nova. Ainda não saiu nenhuma invertendo o favoritismo, e se sair, a volatilidade aumenta.
A terceira é a conta fiscal. Na última semana eleitoral apareceu uma sequência de medidas de apelo popular: perdão de dívida, liberação de crédito, subsídio na gasolina. Mais da metade da bolsa brasileira é capital estrangeiro, e o estrangeiro olha isso e pergunta quem vai pagar. Quando a resposta não é clara, ele reduz posição.
Corrigiu, mas não derreteu
Vale colocar a queda no lugar certo. A bolsa devolveu uma parte de um recorde, não virou pó.
Mesmo depois das três quedas, o índice ainda acumula mais de 10% de alta desde o começo de outubro e algo na faixa de 27% no ano. Se for para corrigir de verdade, tem muito espaço pela frente. Essa correção serviu para quem queria pegar alguma coisinha pontual, e eu aproveitei para comprar algumas ações.
Se o seu problema é o movimento contrário, quando a tela fica vermelha de verdade, escrevi sobre isso em por que você vende no pânico.
Três jeitos de reagir, e o que cada um precisa acertar
Aqui está o ponto que me fez gravar o vídeo. Compare as três posturas em cada cenário possível:
| Se a bolsa | Vendeu tudo com medo | Comprou tudo no topo | Meio termo |
|---|---|---|---|
| Continuar subindo | Fica de fora da alta | Ganha muito dinheiro | Tem posição comprada e participa |
| Corrigir | Fica esperando a hora certa, que nunca é óbvia | Caixa apertado, só assiste | Compra mais ações a preço melhor |
| Andar de lado | O caixa rende o CDI | Fica parado, no máximo recebe dividendo | O caixa rende enquanto espera a oportunidade |
Olhe a coluna do meio termo. Ela não tem nenhum cenário desastroso, e também não tem o cenário dos sonhos. É exatamente isso que eu quero.
Os dois extremos precisam acertar o tempo todo, porque para eles é tudo ou nada. Eu não quero o maior rendimento possível e nem corro atrás dele. Quero um resultado que seja bom para mim e que eu consiga sustentar por anos.
As regras do meu método
Isso não é para copiar e colar. É para você olhar, pegar o que fizer sentido e moldar o seu.
Caixa entre 10% e 20%
Gosto de manter entre 10% e 20% da carteira em caixa, em renda fixa de liquidez imediata. Tem gente que prefere mais, tem gente que prefere menos. Esse intervalo é o que funciona para mim há bastante tempo.
Realizo quando a bolsa sobe muito forte
Vendo um pedaço das posições, principalmente as que acumularam muita rentabilidade e que, na minha leitura, dificilmente repetem aquele percentual. Um pedaço, não a posição inteira.
Recompro nas quedas, em parcelas
Esta é a regra que mais gente ignora. Caiu não significa comprar tudo de uma vez.
Caiu 5%, compro um pouco. Caiu mais 5% e o fundamento continua de pé, compro mais um pouco. Caiu 10%, mais um pouco. Com tranquilidade, sem se emocionar. Sempre vai aparecer outra oportunidade na bolsa, inclusive no melhor momento do mercado, porque sempre tem um patinho feio apanhando em algum canto.
O que eu não faço
- Vender tudo. Já aconteceu na minha vida, mas é raríssimo.
- Comprar tudo de uma vez.
- Apostar tudo por causa de um evento que pode ou não acontecer.
As decisões são tomadas ativo por ativo. Cada papel tem uma história própria para contar, e tratar a carteira inteira como um bloco só joga fora essa informação. Se você está decidindo quantos papéis carregar enquanto isso, está tudo em diversificar ou concentrar ações.
O caso da XPBR31
Vendi um quarto da minha posição em XPBR31 a R$ 158.
No dia seguinte o papel subiu mais. Depois voltou, e hoje está perto de R$ 148. Eu não sabia que ia cair. Se soubesse, teria vendido tudo. Como eu não sabia, vendi um quarto: se subisse, eu ainda tinha posição; se caísse, eu teria caixa para comprar mais.
E veja que, mesmo com o papel mais barato agora, comprar XPBR31 a R$ 140 e pouco não faz sentido para mim. Prefiro colocar o dinheiro em ativos mais descontados. Realizar não obriga ninguém a recomprar o mesmo papel. Sobre o que eu considero descontado de verdade, abri uma conta inteira em MDIA3 na mínima de 14 anos.
Siga o seu método, não o meu
Parece simples, mas quase ninguém faz.
Você define o seu método, aí vê um cara comprando outra coisa e copia. Depois vê que ele vendeu, e copia de novo. O problema aparece no momento difícil, e toda estratégia tem o seu: até os melhores investidores do mundo passam por isso. Só que você não tem o psicológico de quem você está copiando, e nem entende o porquê de cada movimento dele. Aí você sai do papel no vermelho.
Copiar é uma forma de terceirizar a responsabilidade. Quando der ruim, a culpa é do outro, e isso não resolve nada no seu patrimônio.
O método não precisa ser o mais rentável. Isso é impossível de saber de antemão. Ele precisa ser o que você consegue seguir. E ele muda com o tempo: eu mesmo mudei bastante coisa no meu há uns sete anos.
Isso aqui não é competição com os outros. Não interessa se alguém rentabilizou 30% e você 20%. A competição é com você mesmo, em construir patrimônio com comportamento. Foi sobre isso que eu gravei o Investidor Casca Grossa, em nove módulos sobre comportamento e sobre as regras do jogo da renda variável.
A beleza da bolsa não é que ela caiu. É você não precisar adivinhar. Eu tomo a decisão de hoje com a informação de hoje. Se amanhã der ruim, faz parte, e fica de aprendizado. Se der certo, mantenho o método.
Perguntas frequentes sobre a correção do Ibovespa
Por que o Ibovespa corrigiu depois de bater o recorde?
Provavelmente por uma combinação de três coisas: realização de lucro de quem estava comprado antes do primeiro turno, pesquisas eleitorais que apertaram para algo perto de um empate técnico, e uma sequência de medidas de apelo popular que levantou a dúvida fiscal. Como mais da metade da bolsa é capital estrangeiro, essa dúvida pesa no fluxo.
A queda do Ibovespa foi grande?
Não em relação ao que tinha subido. Foram três quedas entre 13 e 15 de outubro, e mesmo assim o índice seguiu com mais de 10% de alta desde o começo do mês e cerca de 27% no ano. A bolsa devolveu parte de um recorde.
Quanto de caixa manter para aproveitar as quedas?
Na minha carteira, entre 10% e 20%, em renda fixa de liquidez imediata. Não existe número universal. O que existe é a conta: sem caixa, uma correção vira espetáculo para você assistir em vez de oportunidade para usar.
Devo comprar tudo de uma vez quando a bolsa cai?
Eu compro em parcelas. Caiu um pouco, compro um pouco. Caiu mais e o fundamento continua de pé, compro mais. Isso evita gastar toda a munição no primeiro degrau de uma queda que pode ter vários.
Quais setores caíram mais nessa correção?
Os que mais tinham subido com a expectativa de juros caindo: construtoras, empresas ligadas ao consumo e varejo. É o padrão de sempre, quem sobe mais na expectativa devolve mais quando a expectativa é questionada.
Por que o dólar subiu se a bolsa caiu?
Pelo mesmo motivo que ele tinha caído antes, só que ao contrário. Na euforia entrou muito capital estrangeiro, e dólar sobrando aqui dentro derruba a cotação. Quando o estrangeiro reduz posição, o dólar sai, e a moeda volta a subir. Ele passou de novo dos R$ 5.
Se você quiser o capítulo anterior desta história, com o Banco do Brasil subindo 40% sem nenhuma melhora de fundamento, está em Ibovespa a 200 mil pontos: a armadilha do recorde. E se a dúvida for por que eu carrego tudo em ações, respondi em me chamaram de maluco por ter 100% em ações.
Aviso importante: conteúdo educacional e informativo. Não constitui recomendação de compra, venda ou manutenção de qualquer ativo. As operações citadas são do autor, com o próprio patrimônio, e as leituras sobre o mercado são opinião dele. Cotações, pontuações do índice e dados de mercado referem-se à data de publicação e mudam. Rentabilidade passada não garante resultado futuro. Não acredite em youtuber nem em influenciador: faça sempre o seu próprio estudo antes de investir.


